A alguns dias da Assembleia Geral Extraordinária decisiva que leva a votos a constituição de uma Sociedade Anónima Desportiva (SAD), o Presidente do Oriental levanta um pouco o véu sobre a proposta que estará em cima da mesa. O sucesso da temporada transata, as dificuldades financeiras, o objetivo da manutenção e a ambição futura de recolocar o Oriental no patamar que lhe pertence pelas palavras do comandante máximo da nação Orientalista. Uma entrevista realista e esclarecedora de José Fernando Nabais, num dos momentos mais relevantes da longa vida do Clube Oriental de Lisboa.
 
 
 

Esta é uma boa ocasião para abordar, em primeiro lugar, a temporada que marcou o regresso do Oriental ao segundo maior escalão do futebol nacional. Que balanço faz da época transata?

- Do ponto de vista desportivo foi, de facto, uma época muito positiva. Tínhamos como objetivo a manutenção e acabámos por conquistá-la a algumas semanas do fim da temporada e com um confortável lugar a meio da tabela. Do ponto de vista associativo, que é também importante porque o futebol cria sempre algumas sinergias e envolvimentos, notámos que houve o regresso de muitos adeptos e que existiu alguma animação e contentamento por o Oriental estar a competir num patamar superior e eventualmente, quiçá, a caminho do derradeiro escalão que é aquele onde já esteve e que eu, desde a primeira hora em que cá cheguei, disse que era o objetivo supremo. Do ponto de vista administrativo e financeiro foi um ano extraordinariamente difícil uma vez que apanhámos uma Liga completamente desorganizada com a saída do Presidente e muitas promessas que nos foram feitas pela anterior Direção da Liga não nos foram cumpridas. Nós orçamentámos verbas que nos foram garantidas e que nunca tiveram consequência, de modo que acabámos por ter uma época do ponto de vista económico-financeiro muito dura. Deu muitas dores de cabeça e muitas noites sem dormir, mas é claro que se nos focarmos no ponto de vista desportivo podemos afirmar que esta foi de facto uma época extraordinariamente positiva.

- É sabido que o Presidente sempre atribuiu máxima importância ao equilíbrio económico-financeiro do Clube. Face às dificuldades atuais, quais são as perspetivas a nível desportivo para a época 2015/2016?

- Eu gosto sempre de equacionar as coisas primeiramente na perspetiva daquilo que é o mais importante: os aspetos económico-financeiros do Clube. São eles que nos permitem ter meios suficientes para encarar as épocas com algum otimismo e formar equipas mais consistentes e mais fortes. Na temporada transata acabámos por, na sequência do que eu disse atrás, equilibrar as nossas contas por via do jogo com o União da Madeira na última jornada da Segunda Liga, que nos permitiu fazer um encaixe financeiro suplementar com a transmissão televisiva. Em nenhum destes últimos 13 orçamentos que elaborei enquanto Presidente do Oriental terminei uma época em que ficasse a dever um cêntimo fosse a quem fosse. Este ano acabei a época com algumas contas por pagar, mas posso garantir aos sócios que apesar disso vamos começar a nova temporada sem dever um cêntimo a quem quer que seja. Isso é o mais importante visto que reflete a estrutura e a forma como o Clube está mais forte. O Oriental tem vindo a crescer e a fortalecer-se durante os anos e é daí que as novas perspetivas de futuro são sempre otimistas, enquanto não nos desviarmos deste caminho do rigor ao nível das contas, das contratações e dos compromissos teremos sempre boas perspetivas para o futuro. Em relação a esta época que agora começa, os objetivos mantêm-se: a manutenção na Segunda Liga. Mas estamos convencidos que temos uma equipa mais forte, mais coesa e homogénea, por força de vários fatores como nós próprios estarmos mais fortes, a Liga estar estabilizada, e naturalmente por termos assegurado a continuidade da estrutura técnica. Foi de máxima importância termos mantido a equipa técnica já pelo quarto ano consecutivo. Isso para nós é uma mais-valia, e nós não podemos desperdiçar as mais-valias que possuímos. Temos muita confiança no Professor João Barbosa e sua equipa técnica e isso também nos ajuda a fazer equipas mais equilibradas com o conhecimento do plantel e da realidade da Segunda Liga. Tudo isto nos permite fazer um trabalho mais consistente e mais equilibrado e por esse motivo estamos convencidos que vamos fazer uma época onde atingiremos plenamente os nossos objetivos.

- O plantel foi reforçado com elementos de qualidade e os resultados da pré-época têm sido positivos, fatores que estão desde já a deixar boas indicações para os jogos oficiais…

A pré-época está a correr bem pelo trabalho e não tanto pelos resultados. Os resultados da pré-época não me dizem muito, valem o que valem apesar de ser sempre melhor ganhar do que perder. Ganhar e ver que a equipa não tem consistência é pior que não ganhar e ver que a equipa está a jogar bem, e neste sentido felizmente a equipa tem conseguido vencer os jogos com boas exibições. Agora é bom salientar que a competição oficial tem início no domingo e é aí que vamos começar a tirar conclusões mais definitivas, muito embora eu ache que nós estamos a formar um plantel bom, equilibrado e consistente. Ainda nos faltam contratar dois jogadores que temos que escolher criteriosamente de forma a serem mais-valias em termos desportivos sem desequilibrarem em termos económico-financeiros. Tal como fizemos com todos os outros elementos do plantel, estamos a fazer tudo para conseguir que a relação qualidade-preço seja a que pretendemos e esteja dentro dos parâmetros que definimos.

- O crescimento do Clube pela base passa muito pelo assegurar deste equilíbrio ao nível das contas, sempre com a ambição de fazer mais e melhor. É neste contexto que surge a Assembleia Geral Extraordinária da próxima sexta-feira, 31 de Julho?

O crescer pela base passa pela estabilidade financeira conjugada com uma aposta grande nas infraestruturas. Quem conheceu as infraestruturas deste Clube há 13 anos poderá reconhecer as melhorias, mas o que me preocupa não é o que foi feito mas sim o que ainda há para fazer, e falta muita coisa para fazer. A Assembleia de sexta-feira [dia 31 de Julho, às 20h30 na Sede Social do Oriental] é importante porque tem um ponto que visa a proposta de transformação da atual Sociedade Unipessoal por Quotas (SDUQ), em que o único titular do capital é o Oriental, para uma Sociedade Anónima Desportiva (SAD), que passa por uma mudança de paradigma que visa a partilha desse capital com investidores externos. Nós já ouvimos muita gente, falámos com muita gente, recebemos muitas propostas e de tudo aquilo que analisámos entendemos que houve uma proposta que tem eventualmente pernas para andar. Mas queremos que sejam os sócios a decidir porque o que aqui propomos é de facto uma grande mudança de paradigma, sendo certo que a Direção fará sempre tudo para defender os interesses do Clube. Não posso entrar aqui nesta entrevista em pormenores acerca das negociações que poderão servir de base à eventual constituição da SAD, porém o que posso desde já garantir é que de todas as propostas que recebemos esta é a que mais se coaduna com os nossos interesses e com a filosofia de não querermos perder a nossa identidade e essa é a questão fundamental. É certo que nunca venderemos o Clube a troco de coisa nenhuma, esta proposta de constituição da SAD tem a ver com o facto de nós querermos ir mais além e os meios que temos atualmente não permitirem nesta Segunda Liga fazer algo mais que a manutenção, ter uma atitude mais competitiva e andar nos lugares cimeiros com vista, quem sabe, à subida de divisão. Numa primeira entrevista que dei há 13 anos quando assumi o cargo de Presidente disse que o objetivo supremo de qualquer pessoa que se sente nesta cadeira tem que ser o de recolocar o Oriental no lugar onde já esteve visto que só assim é que podemos fazer jus à nossa História. Se nós não tivéssemos visto o Oriental na 1.ª Divisão provavelmente não teríamos esta ambição, mas como vimos temos que honrar aqueles que fundaram o Clube e que o levaram a esse patamar. A nossa obrigação é, paulatinamente, com calma e os pés bem assentes na terra, chegar ao sítio onde já estivemos. E isso pode ser mais fácil e mais rápido se tivermos algumas parcerias.

- A existência de investidores externos é de resto uma realidade na grande maioria dos Clubes que competem nos campeonatos profissionais…

Se olharmos para os clubes que competem connosco nesta Segunda Liga verificamos que todos eles têm investidores e se nós não pensarmos na hipótese de arranjar um parceiro credível que nos ajude nesta caminhada naturalmente será cada vez mais difícil competir com eles visto que o que está em causa são os meios e nós, no panorama atual, nunca teremos os mesmos meios que os outros. Quando nos dão os mesmos meios que os outros nós somos competitivos, sabemos que em igualdade de circunstâncias somos muito fortes. Somos um Clube que com algum investimento tem propensões para crescer muito porque estamos inseridos numa zona densamente populacional. Somos o Clube representativo da zona oriental de Lisboa, uma zona que não se esgota nas freguesias de Marvila e do Beato e que se alastra, no mínimo, aos Olivais e Parque das Nações. Nós temos que conquistar estas pessoas, sabemos que não é fácil mas temos que as conquistar através de êxitos desportivos. Sabemos que os êxitos desportivos são efémeros porque hoje ganha-se e amanhã perde-se, mas se estes êxitos desportivos forem conquistados de forma consistente e contínua, de forma a que seja possível ver o Clube crescer no seu todo, então aí teremos cada vez mais possibilidades de que estes êxitos desportivos deixem de ser efémeros e passem a ser uma normalidade, é isso que nós pretendemos. Agora não há dúvida nenhuma que haverá uma mudança de paradigma se assim os sócios pretenderem e é por este motivo que a participação massiva dos sócios é tão importante. Nós vamos fazer a Assembleia de uma forma rigorosa, explicar tim-tim por tim-tim os contornos da negociação já realizada, ao ponto de ser uma Assembleia onde não será permitida a entrada a não sócios nem à imprensa. É uma questão do foro íntimo do Clube, nesta Assembleia vamos apresentar os prós e os contras da eventual mudança e deixar que os sócios decidam em consonância com a sua consciência e com aquilo que querem para o futuro do Clube. A votação será por voto secreto para que todos se possam expressar da forma mais democrática possível e depois, em função daquilo que os sócios decidirem, nós atuaremos em conformidade com essa decisão. Se for aprovada a constituição da SAD nós defenderemos intransigentemente os interesses do Clube nas negociações que já estão em curso mas onde faltam ainda definir alguns pormenores como o contrato parassocial que é muito importante. Se for chumbada continuaremos a trabalhar com os meios que o Clube tem.

- Para levar a proposta de constituição da SAD a votação em Assembleia Geral Extraordinária, o Presidente é certamente a favor da sua aprovação. Qual o argumento que pode invocar para convencer os sócios a votarem favoravelmente?

O crescimento do Clube, um parceiro para ajudar o Clube a crescer. Dotar o Clube de meios para construir o segundo campo para o Futebol Juvenil, para remodelar de uma vez por todas o Campo Eng.º Carlos Salema e adaptá-lo em definitivo às características regulamentadas para competir numa 1.ª Liga a curto prazo nomeadamente através tanto da lotação do estádio, iluminação, controlo eletrónico de entradas, videovigilância de controlo e segurança, assim como a remodelação da parte administrativa da Sede onde irá trabalhar o coração da SAD, para além do Clube. Esse é o nosso objetivo. O futebol não nos pode embebedar ao ponto de ficarmos embriagados e perdermos o discernimento, mas sabemos que as conquistas e as vitórias na medida certa criam empatias e sinergias que ajudam o Clube a crescer. É neste sentido que nós vamos apresentar esta proposta aos sócios. Vamos apresentar de forma muito detalhada os contornos da constituição da SAD e, sem a defender com unhas e dentes, vamos deixar a decisão ao critério dos sócios com a certeza de que respeitarei claramente aquele que for o resultado da votação. É muito importante que os sócios estejam presentes e que participem com todas as perguntas e dúvidas que tiverem e, partindo desse ponto, terão a legitimidade para votar no sim ou no não. A democracia fará com que o Clube saia mais forte desta Assembleia e o futuro será sempre diferente independentemente da proposta ser ou não aprovada.

- No caso de a proposta de ser aprovada, a constituição da SAD será imediata?

Em princípio não será imediata. Esta época está toda delineada, poderá haver uma colaboração desde logo com os investidores de forma a aumentarmos um pouco o orçamento da SDUQ com vista a melhorarmos um pouco a parte da infraestruturas, uma vez que a nível desportivo o plantel está praticamente fechado, faltando apenas os dois jogadores que já falei. A SAD será feita depois, com calma e respeitando todos os trâmites legais, mas o primeiro passo que tem que ser dado passa pela votação dos sócios. A decisão deles corresponderá à nossa atuação.

- Falou por várias ocasiões em “mudança de paradigma”. Com a constituição da SAD, o que mudaria em termos práticos na vida diária do Oriental?

O que mudaria essencialmente seria a partilha de algumas funções no plano desportivo. Não quero levantar muito o véu porque esta é uma questão a abordar na Assembleia, mas uma das coisas de que nós não queremos abdicar é da gestão económica e financeira da SAD, sendo a gestão desportiva mais partilhada com os investidores. Há aqui de facto uma mudança de paradigma essencialmente por estarmos a colocar aqui pessoas que não são do Oriental e que vêm para aqui com um determinado interesse, um determinado objetivo. É claro que essas pessoas passam a ser do Oriental ao fim de que 15 dias porque o Oriental é assim: cria afinidades fáceis. Mas há que reconhecer que há o interesse de quem investe em tirar mais-valias desse investimento e isso depois terá a ver essencialmente com a venda de jogadores no futuro, em que naturalmente haverá aí algum ressarcimento da parte desse investimento. Nós queremos que seja feito um casamento perfeito. Não sei se há casamentos perfeitos porque hoje em dia a média de divórcios é cada vez maior, mas não custa tentar. Se toda a gente pensar que se ia divorciar ninguém se casava. Vamos tentar que o Clube seja feliz e que os sócios fiquem felizes com a solução, isso é o mais importante.

- Existem alguns exemplos bem conhecidos de casamentos imperfeitos entre clubes e investidores externos e nesse contexto há uma questão que se impõe. A perda de soberania em termos de tomada de decisão não o assusta?

Eu diria partilha de soberania, isso terá que haver naturalmente. Se me assusta? Assusta-me um bocado. Eu fiz teatro muitos anos, estive muitos anos ligado ao teatro e apesar da experiência que tinha por cada vez que entrava em palco para fazer determinada representação que já tinha feito ‘n’ vezes sentia sempre aquele dorzinha na barriga que tinha a ver com o medo, o assustar, a responsabilidade. Eu acho que o medo é sinónimo de responsabilidade e naturalmente que neste caso redobra-se a responsabilidade de fazer um bom casamento, isso é inequívoco. Mas nós defenderemos intransigentemente até à morte os interesses do Oriental, e isso é o mais importante. Tudo o resto será debatido na Assembleia.

Entrevista e Fotografia: Diogo Taborda