Já na próxima sexta-feira, 05 de Fevereiro, a vida do Clube Oriental de Lisboa volta a estar nas mãos dos seus associados em plena Assembleia Geral. A Direção liderada por José Fernando Nabais leva a votação o Plano de Reestruturação da Sociedade Desportiva e em entrevista o Presidente levanta o véu sobre o que vai ser apresentado e discutido. A passagem da atual Sociedade Desportiva Unipessoal por Quotas (SDUQ) a Sociedade Anónima Desportiva (SAD) estará em cima da mesa através da possível entrada de parceiros estratégicos que poderão permitir ao Clube equilibrar as contas e sonhar mais alto, mantendo a sua própria soberania. "Uma questão de escolha entre duas opções", diz José Fernando Nabais. Certo é que a participação de todos os sócios é, mais que nunca, fundamental.     
 
 

A 31 de Julho de 2015 os sócios chumbaram em Assembleia Geral a proposta de criação da SAD nos parâmetros de repartição do capital de 60% para o investidor e 40% para o Oriental. Esta sexta-feira, 05 de Fevereiro, a reestruturação da Sociedade Desportiva volta a votação certamente em moldes diferentes. Quais são as alterações?

- As alterações prendem-se essencialmente com uma ideia mais assertiva daquilo que é hoje a realidade do Clube. Convém voltar um pouco atrás e dizer que a primeira época que nós passámos na Segunda Liga foi bastante atípica e não nos permitiu adquirir um conhecimento profundo desta realidade. A temporada que está agora a decorrer não teve ainda nenhuma atipicidade no que diz respeito às receitas e despesas que estavam previstas, pelo que temos agora um conhecimento mais profundo da realidade e notamos hoje uma questão que é a pedra base desta convocatória. De uma forma muito clara é preciso dizer aos sócios do Oriental que o Clube pelos seus meios próprios, pelas receitas que gera, não tem capacidade para militar nesta Segunda Liga de forma a honrar condignamente o Clube por insuficiências orçamentais que não permitem fazer face à competição e muito menos às melhorias de infraestruturas necessárias. E dentro dessas melhorias existem aquelas que nós temos que fazer e as que achamos que devemos fazer. As que temos que fazer são relativas às obrigações estabelecidas pela Liga nomeadamente o controlo eletrónico de entradas, o encadeiramento de todas as bancadas, o sistema de videovigilância, o reforço da iluminação elétrica e a pavimentação da parte nascente do Campo e respetiva construção de casas de banho e zona de primeiros socorros para que deixemos de ter bancadas interditas. As que nós gostaríamos de ter e que consideramos serem fundamentais para o futuro do Clube têm a ver com a construção do segundo campo sintético e do pavilhão, a reformulação da zona das cabines e também alguns compromissos que já assumimos com a Câmara Municipal de Lisboa no sentido de dotar as instalações que nos vão ceder, o edifício da Quinta das Claras, onde gostaríamos de construir um mini centro de estágios. Tudo isso é imprescindível para que o Oriental cresça e é de impossível concretização com os meios próprios que o Clube possui atualmente.

É neste contexto que surge a necessidade de investimento externo?

- Por esta via surgem dois caminhos que podemos seguir. Ou caminhamos sozinhos e com isso temos que ter consciência de que estamos no patamar errado, que não estamos no patamar que se coaduna com a nossa realidade, ou constituímos parcerias em que haja uma conjugação de esforços para dotar o Clube do reforço orçamental que permita colmatar todas estas necessidades. A grande diferença entre o que foi apresentado na Assembleia de 31 de Julho de 2015 e o que vai ser discutido esta sexta-feira tem a ver com o facto de nós, Direção, sermos da opinião que o Clube não deve ser alienado a qualquer preço. Não pretendemos que haja alguém que venha para cá tomar conta do Clube, mas sim conseguir uma parceria com alguém que queira caminhar connosco, o que é substancialmente diferente. É essa problemática que vamos discutir na próxima Assembleia, essencial para a vida do Oriental, e que nos permitirá tirar conclusões e projetar o futuro imediato em função da vontade dos sócios.

Falamos então da constituição de uma SAD em que o Clube manteria a maioria do capital?

- Sim. Eu pessoalmente enquanto sócio sou da opinião que o Clube deve ter a maioria do capital. Para que isso aconteça é necessário que encontremos o parceiro certo que esteja disposto a trabalhar connosco naturalmente com algumas condições que serão depois plasmadas no Contrato Social, em que os investidores terão que ter garantias de que poderão gerir a parte desportiva, já que estamos a falar de uma Sociedade direcionada exclusivamente para o futebol. Creio que neste ponto é relevante esclarecer que a grande maioria dos Clubes da Segunda Liga tem um orçamento igual ou superior a um milhão de euros e nós estamos com um orçamento apenas ligeiramente superior a metade desse valor. Para agravar a situação, na época que está a decorrer descem cinco equipas e na próxima descerão quatro, sendo portanto duas temporadas importantíssimas para o Clube. Se nos quisermos efetivamente fixar na Segunda Liga com objetivos de almejar algo mais, o que deve ser sempre uma ambição ponderada dos sócios porque nós já estivemos em patamares superiores, temos que nos unir a quem queira caminhar connosco. A constituição de uma parceria iria permitir o reforço do orçamento com vista à constituição de uma equipa mais competitiva, satisfazer as exigências da Liga no que diz respeito a infraestruturas e, ainda antes de fazermos os restantes melhoramentos nas infraestruturas, necessitamos de reforçar a própria estrutura do futebol com outros meios, nomeadamente em termos administrativos e logísticos. Para que tudo isto aconteça temos que ter um orçamento compatível com esta nova realidade e por meios exclusivamente do Clube não teremos nunca hipóteses de o conseguir. É por isto que achamos que temos que encontrar uma solução que não afete a imagem do Clube mas que por outro lado nos permita avançar de uma forma mais consentânea com aquilo que são as exigências desta Segunda Liga.

A 31 de Julho foi apresentada aos sócios uma proposta concreta de um investidor concreto. Na Assembleia de sexta-feira os sócios poderão esperar o mesmo ou a votação será feita de forma distinta?

- Na sexta-feira não irá acontecer o mesmo. Não quero entrar em pormenores, porque esses ficam para o foro íntimo da Assembleia, mas o que nós pretendemos é que haja uma clarificação por parte dos sócios no sentido de o Clube estar ou não estar aberto a este tipo de negociação no quadro de uma possível parceria com investidores que nos permita não perder aquilo que consideramos ser a nossa soberania. O que à partida tem a ver com a repartição do capital e não só.

O Presidente referiu recentemente que “com os meios atuais seremos sempre escravos dos resultados” e que “viveremos sempre numa agonia permanente em relação às contas”. Considera que esta é a única alternativa para que o Oriental consiga salvar a sua saúde financeira e evitar a descida de divisão a médio prazo?

- Neste momento, é. O Oriental precisa de ter mais receitas para ter um orçamento maior. Nós sabemos as receitas que temos e não perspetivamos que elas aumentem num futuro próximo. Temos que trabalhar gradualmente para que as próprias infraestruturas nos venham a gerar mais receitas, mas não temos essa possibilidade e então ficamos aqui numa quadratura do círculo sem saída em que por um lado precisamos das infraestruturas para gerar receitas e por outro precisamos de receitas para criar infraestruturas. Portanto o que é preciso de facto é ter consciência que para o avanço do Clube é importante a manutenção nesta divisão, mas para que isso aconteça é preciso que o Clube tenha meios para continuar a lutar sem hipotecar o seu futuro, o que só é possível com a constituição de parcerias. O que posso adiantar é que quando esta Direção veio para cá o Oriental estava tecnicamente falido e demorámos pelo menos 8 anos a colocar o Clube financeiramente saudável apenas com os seus próprios meios. E não gostaríamos de agora, a troco da ideia de nos querermos manter na Segunda Liga a qualquer preço, nos continuarmos a endividar sem nexo nenhum. Isso não faz sentido e não é por aí o caminho. O momento é de clarificação da situação: ou temos parcerias para que possamos aumentar o nosso leque de receitas e por consequência ir construindo aquilo que queremos construir ou não temos essas parcerias e então devemos recuar para o patamar desportivo consentâneo com a nossa realidade económica. É uma questão de escolha entre duas opções, qualquer uma delas legítima.

Na entrevista que concedeu dias antes da Assembleia da primeira votação da SAD falou de uma possível “mudança de paradigma”. Considera que caso este novo cenário seja aprovado pelos sócios também se constituirá como uma mudança de paradigma?

- Se quisermos ser mais precisos, a mudança de paradigma aconteceu logo no dia 24 de Maio de 2014 quando subimos de divisão. Entrámos para uma realidade que não conhecíamos, fomos trauteando um caminho que acabou por ser cheio de engulhos, mas fomos caminhando. Hoje conhecemos a realidade e a dificuldade que é estar neste patamar e o paradigma que atualmente temos não nos agrada nem nos concede à partida grande capacidade para enfrentarmos o dia-a-dia de peito aberto no sentido de nos podermos comprometer, minimamente até onde é necessário, sem fazer gastos que o Clube não pode comportar. Haverá uma mudança para um paradigma melhor caso nós avancemos ou recuemos, qualquer um dos paradigmas possíveis será melhor que o atual. Recuarmos para onde já estivemos ou avançarmos criando parcerias que nos possam ajudar a ter orçamentos mais consentâneos com a nossa realidade, qualquer um destes paradigmas é melhor que o atual. A situação que vivemos atualmente é que não nos serve seguramente.

Existe alguma previsão em termos de prazos para a constituição efetiva, se aprovada, da SAD?

- Existem contactos, mas evidentemente que depois de uma solução devidamente fundamentada e estruturada ter sido chumbada em Assembleia é natural que os possíveis parceiros queiram uma clarificação à partida, querem saber com o que é que podem contar. O que vamos pedir à Assembleia é autorização para negociar dentro destes parâmetros, depois aparecerão certamente os interessados, com os quais até já houve algumas abordagens. A nossa equipa está em crescendo, o cenário da manutenção é cada vez mais possível e isso também atrai investidores, na medida em que estas parcerias só fazem sentido estando no patamar da Segunda Liga. Se os sócios permitirem que estas parcerias de facto avancem estou convencido que poderão ser efetivadas a partir da próxima temporada, sendo então necessário reunir novamente a Assembleia para clarificar quem é o parceiro e ter o aval para avançar com o negócio com a empresa A, B ou C.

É um momento delicado para o Clube que faz com que a presença dos sócios seja ainda mais importante.

- A participação dos sócios é fulcral. Pela experiência que tenho, haver 50 ou 60 associados numa Assembleia já bom mas dentro de um universo de mais de 2000 não é muito. O que podemos fazer é apelar para que as pessoas venham para que possamos discutir o futuro do Clube, já que é exatamente o futuro do Clube que está em causa. É uma Assembleia decisiva para o futuro do Oriental e é importante que as pessoas venham e tomem partido de forma consciente, que analisemos a situação com realismo e que se possa tomar a melhor decisão para bem do Oriental. 

Entrevista e Fotografia: Diogo Taborda